Movimento cooperativo – uma alternativa real!

No ano em que se celebra o Ano Internacional das Cooperativas, é mais do que oportuna a leitura do artigo do Presidente da Mútua dos Pescadores, João Delgado, que reflete sobre o movimento cooperativo e a “urgência de agirmos” enquanto coletivo, guiados pelos seus princípios de justiça social, solidariedade, numa sociedade marcada por valores tão antagónicos a esses, onde de facto “a paz, a solidariedade, a igualdade, a liberdade, a independência, a governação democrática, o combate à pobreza, à exclusão social, a defesa do meio ambiente, a intercooperação, a multiculturalidade, a multireligiosidade e a defesa integral dos Direitos Humanos estão hoje seriamente colocadas em causa.”

Aqui deixamos alguns excertos do artigo, publicado na Revista Seara Nova 1771, Verão 2025 que pode ser lido na íntegra no final.

O movimento cooperativo – uma alternativa real na urgência de agir
João Delgado, Presidente do Conselho de Administração da Mútua

“Pensamos haver aqui, dentro de uma economia naturalmente mista, tal como a Constituição da Républica consagra, necessidade de olhar para o tripé onde se articulam os três  setores (Público, Privado/Lucrativo e Social e Cooperativo, a atuar simultaneamente na arena do mercado), onde as estruturas do setor não lucrativo, mesmo não tendo o primado do lucro, tendem a replicar as lógicas de atuação, as escalas de valores, as dimensões simbólicas, a imagética e as questões de ordem comportamental do modelo económico dominante – este parece-nos um dos fatores que confere maiores níveis de insustentabilidade ao seu desenvolvimento.

Daí a necessidade extrema da consciencialização, da formação e da preparação, tanto de quadros dirigentes, como de quadros técnicos, no sentido de estarem devidamente imbuídos desse espírito de integração em estruturas que visam a construção de um mundo diferente, onde o capital é uma ferramenta, que se distribui e se aplica com distintos objetivos, num mundo onde os princípios e valores teóricos que regem o movimento cooperativo à escala global sejam uma unidade dialética em permanência com a prática de todos os dias, na vida das organizações e nas comunidades.

A Educação e Formação, como sabemos, determinam a sociedade que queremos, as organizações que pretendemos, o mundo que gostaríamos de ver materializado. No plano do ensino dito regular, as formas de organização económica e social não dominantes, tal como as “diferentes constelações da galáxia da Economia Social” – assim as definia  Namorado –, deviam carecer de um outro tratamento, uma outra centralidade.
(…)
Desta forma, os governos nacionais, bem como as estruturas supranacionais, desde logo no quadro da União Europeia, devem dedicar atenção redobrada no sentido de criar uma centralidade nova ao cooperativismo, no plano institucional e nas opções governativas, se é que entendemos, todos, que o seu reforço é imprescindível para agir nas prioridades que se colocam, como são, por exemplo, as respostas no acesso à habitação, na produção energética, na produção e distribuição alimentar, na Cultura, nos transportes, entre outros.
(…)
A afirmação da liberdade plena, também no plano da intervenção na economia, só se poderá atingir se colocarmos o cooperativismo num outro patamar de visibilidade, comunicação e consciencialização sobre o seu papel na construção de um mundo mais justo e equilibrado.
Desafios atuais que ganham mais relevância e dimensão neste ano de 2025, no quadro das comemorações do ano internacional das cooperativas, onde se pretende fomentar, acentuar, reforçar e alavancar o ideal cooperativo, como uma das soluções para a encruzilhada em que nos encontramos.”

Artigo na íntegra

Fotografia de Miguel Lourenço
Fotografia de Miguel Lourenço