Arte comprometida com a vida, o mar e as pescas

João Delgado, Presidente da Mútua, entrevistado na Revista de Marinha

Com o mar como elemento chave da sua vida, é na pesca, na vida associativa, e nas artes que João Paulo Delgado gosta de navegar. Nesta entrevista à Revista de Marinha revisita alguns lugares e momentos âncora da sua vida que o fizeram nunca mais se desligar dele…

A pesca e o mar, no contexto familiar e da comunidade da Nazaré, têm sido desde sempre a sua principal fonte de inspiração, e a influência do seu avô paterno, mestre-pescador, arrais da arte xávega, na sua vida desde pequeno, foi estruturante no seu crescimento e aprendizagem.

Passava com ele a maior parte do seu tempo, a “encher agulhas” e a preparar as artes de pesca, e a construir com ele brinquedos com os materiais que sobravam dos trabalhos, cortiça e madeira, não mais do que cópias, miniaturas, dos objetos que os rodeavam, as embarcações de pesca. Nesta arte de brincar com as artes de pesca nasceu-lhe o gosto pelas “manualidades” como afirma, e o fascínio pelo seu poder transformador. As cores garridas das embarcações da Nazaré no horizonte sempre próximo, deram enfim o empurrão final a uma sensibilidade artística crescente. Por outro lado, mas do mesmo lugar de partida, a convivência com os pescadores e a comunidade deram-lhe também a consciência social e o compromisso social e político com a sua comunidade piscatória, desde a Nazaré, mas estendo-se com o tempo a todo o país costeiro que aprendeu a conhecer de lés a lés, com a organização que o ajudou também a crescer, e à qual pertence desde “sempre” como ele diz, a Mútua dos Pescadores.

“…Os muitos dias passados a encher agulhas para fazer rede, a pintar as embarcações, a desenhar o seu conjunto de identificação – por ter uma mão muito mais fina e pequena que as mãos enormes do meu avô – a construir, com ele, brinquedos vários com recurso a materiais utilizados na pesca como a cortiça, construir miniaturas de embarcações de madeira, a assistir diariamente àquela imensa paleta de cores com que eram pintadas as embarcações da Nazaré, muito provavelmente estes processos e vivências inculcaram em mim o gosto pelas manualidades e posteriormente a ligação à produção artística.”
“O diálogo entre a peça, o espaço que a envolve, o conceito que lhe subjaz e a interação com o espetador é algo que me motiva muito enquanto produtor de obras de arte. Esta abordagem conforma com a perspetiva que tenho do mundo – o contexto é fundamental à interpretação e à explicação de qualquer fenómeno, inclusive no plano artístico. Essa visão “a toda a roda”, como que se deambulasse à volta, por cima e por baixo, das peças, dos espectadores e dos espaços onde estão instalados, interessa-me muito.”

Seja na escultura, na fotografia, na pintura, gravura ou na investigação científica (João Delgado terminou um doutoramento em Sociologia), os seus projetos são também “socialmente comprometidos, onde as pessoas, os processos sociais, o mar e as pescas ocupam o espaço central.” E tem uma visão da arte enquanto motor de transformação do mundo, forma maior de exercer o pensamento crítico, e não apenas na sua dimensão mais estética ou contemplativa.

Uma visão bem patente numa instalação que produziu para uma das praças principais da Nazaré, em frente à Capitania, “Heróis ou Mercadoria”, que consistia em vários módulos de paletes empilhadas, em que nas faces desses módulos constavam as fotografias de todos os nazarenos que foram à pesca do bacalhau. Os módulos eram envolvidos por película aderente, tal como se envolvem as cargas para transportar: “Heróis” do Estado Novo empilhados como mercadorias… “colocando a nu a forma como várias gerações de pescadores de todo o país foram utilizados [entre as quais a sua família, avós, pai, tios e primos] mal tratados, torturados, trabalhando em situações desumanas, e perseguindo os objetivos de uma certa oligarquia das pescas nacionais em estreita articulação com o corporativismo do Estado Novo.”

Por fim a arte como fator de coesão social e de fortalecimento das pessoas e comunidades, mesmo quando o faz, como a instalação dos pescadores do bacalhau, para desconstruir crenças antigas. É por isso também que João Delgado refere a importância de envolver os jovens nestes processos. E no caso das culturas marítima “é uma questão crucial para assegurarmos a nossa ligação ao mar no futuro”, algo que muitas organizações já compreenderam e que a Mútua dos Pescadores, como refere, tem vindo a fazer de um modo mais sistemático.

Pode aceder ao Separador “Mútua na Comunicação Social” e ler a entrevista na íntegra.

Cortesia João Delgado
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